APETRECHO DE PESCA
2025 LAGUNA, BRASIL INTERVENÇÃO EFÊMERA

Os sistemas treliçados, via de regra, se articulam por nós rotulados, permitindo que as peças atuem entre si por compressão e tração simples. A viga Vierendeel, ao engastar os nós e eliminar os quadros diagonais, estrutura uma flexão global, cujos esforços são transferidos integralmente e atuam peça sobre peça.

As pontes que Arthur Vierendeel constrói a partir de seu sistema desenvolvido tomam a esteira das grandes estruturas metálicas do século XIX, onde a revolução industrial dá aos engenheiros um fôlego incessante na produção de infraestruturas. Matthew Digby Wyatt, arquiteto que é tomado de assalto pela proliferação galopante dos vãos que agora eram vencidos, exclamava que “de tais inícios, as glórias que podem advir… podemos sonhar, mas não ousamos prever”.

Na contramão dos trens, cujas pontes se contorcem em agonia para cumprir vãos físicos e uni-los aos trilhos, os barcos não requerem um caminho delineado. Guiados não pelo chão, mas pelo céu, navegadores recorrem das estrelas aos faróis, estruturas que lançam um ponto de luz, forjando uma estrela que possa ser seguida. O caminho entre o mar e a costa é traçado pelo céu: olhos atentos olham pra cima e deslizam abaixo, entrecortando um espaço em aberto que volta a ser assim quando o caminho é finalizado. Assim buscamos traduzir a lógica da terra firme na lógica do mar.

A relação da pesca e do bicho-pescador com o bicho-pescado constrói uma simbiose ímpar na Laguna. Da lagoa se tira muito e, na terra, se consome. A pesca de liquinho subtrai um pouco dessa luz da terra firme e empresta ela ao mar: um pedaço de luz vai na mão do pescador, como um fio que se estende à luz aterrada, para atrair o camarão e lançar-lhe a rede. A luz que baliza a reação do mar à terra se estende mar adentro tensa, como quem quer logo voltar ao alto da torre. O farol aponta para o mar, onde o pescador vai com a intenção inequívoca da volta.

O farol, aqui e agora, se doa à laguna. Uma viga Vierendeel se apoia sobre dois barcos que, parados, traçam uma reta que demarca um perceber, mas que não sublinha o mar. O espaço da deriva ainda está aí: a luz aponta para o horizonte, o farol se estende na direção da linha do céu, e a laguna é o novo ponto de retorno.

A viga, de seção 70×90 cm e de 640 cm, fechada com caixas de peixe plásticas rígidas que contraventam a estrutura, reluz uma luz difusa. Bi-apoiada, usa os balanços de 130 cm entre-eixos para que equilibre os barcos: estamos em um terreno liso, que responde a todo estímulo. Há de se transferir a carga com ternura para a laguna. O Teatro del Mondo de Rossi (1979) já nos mostrava que, sobre a água, toda tipologia organiza um símbolo. O afastamento de quem vê é mandatório e a função, aqui, não vale de tanto quanto o que pode representar. Como acessar um teatro à deriva pelas águas de Veneza? Como atravessar uma ponte à deriva pela Laguna?

O curto-circuito da forma encontra uma poesia: os barcos se unem e carregam uma ponte que não leva nada a lugar nenhum. O vão de quatro metros não carrega peso que não seja o seu, mas coloca os dois barcos sobre uma mesma ação e reação no movediço terreno das águas. Constrói, à palavra dos barqueiros que embarcam a viga, um “apetrecho de pesca”: o liquinho, pedaço de “luz da terra firme” que o barco carrega consigo no mar, agora é uma “luz da laguna” que se empresta para que seja lançada a rede sobre a cidade.

A estrutura se constrói a partir de uma sequência de dois módulos. O primeiro é formado pela caixa de peixe com um quadro perimetral em madeira. Parafusada, atua como a superfície planar que vence o entre-montantes de cada quadro rígido da viga. O segundo, formado pela união de quatro módulos e contraventados por um sistema de cabos, constrói a unidade tridimensional de montante-membrura que modula a viga. Ao ser desmontada, os módulos primários são rearranjados para a construção de banquetas que utilizam as caixas como assento e são distribuídas por instituições na cidade.

O sistema é duplamente parafusado, para minimizar rotulação, até formar a extensão total da viga. Em seu centro, uma sequência emendada de ripas sustenta o sistema elétrico, formado por lâmpadas 12V de bulbo conectadas a duas baterias automotivas. Uma sequência de ganchos guia dois fios de aço que minimizam a flexão na parte inferior da seção.

Ao ser acesa, a luz projeta sobre a lagoa um vazio. Aqui, os dois apoios náuticos criam um pórtico que constrói, abaixo de si, um “entre” do mar com o céu, em um vazio evidenciado pela luz. Essa ponte-farol abre uma margem de dúvida. Para onde será que vai? Como vai se fazer funcionar? Que margens precisa unir? Talvez a resposta não esteja entre a tração e a compressão, assim como não estava a do jovem Vierendeel. Enquanto fantasiamos em torno dos “A”s e “B”s a que viriam calhar uma ponte que os conectasse, a luz das caixas avisa: a resposta está na laguna. Podemos sonhar, mas não ousamos prever.


SOBRE A PRODUÇÃO

Este projeto foi executado através da oficina “Construindo ligeiro vol. 2”, viabilizada a partir de incentivo e recursos do Edital Nº 001/2025 do Festival Internacional de Arte e Cultura José Luiz Kinceler – FIK 2025.

A oficina propõe uma introdução à arquitetura de intervenções no espaço público com um exercício construtivo de curta duração. Utilizando materialidades de baixo impacto e integração local, a atividade propõe refletir sobre as relações de contexto, os conflitos da cidade e as possibilidades de tomar parte da ação na arquitetura.

Os participantes foram convidados a observar, discutir e produzir, enquanto constroem em um período de 12 horas, ações que impactam as percepções de cidadania e propõem novas formas de pensar o objeto arquitetônico, a cidade, e como interagem.

O resultado é de uma obra construída a muitas mãos e que, através de soluções de projeto pensadas antes e durante o processo construtivo, agregam nas discussões sobre o contexto do Centro Fundacional de Laguna.

ARQUITETURAAMP
Igor de March
João Vitor Pilati
Tony Torquato

DESENVOLVIMENTOAgatha Antunes
Lucas Tavares

APOIOLivia Collantes

ENGENHARIAMarcos Ogata

PESCADORESPaulo Rodrigo Silva dos Santos
Leonardo da Silva Purcina

INSTALAÇÕES ELÉTRICASAnderson Wendhausen

FOTOGRAFIAMurilo Faller

PARTICIPANTES Ana Clara de Souza Kretzer, Ana Laura Mai Marciano, Ana Livia Silvares Fiorussi, Bruna Adriano da Costa, Bruna Gauger, Bruno Schutze, Clara Briani, Eduardo da Rocha Neckel, Erica Cardoso Schmitt da Luz, Erik Paludo Klonowski, Estella Louise Ribeiro da Rocha, Gabriela May Garcia, Gabriela Torres, Guilherme Böger Cardoso, Guilherme de Oliveira da Costa, Haika Jhuana Nabilla Gerhart Marx, Heloisa Moraes, Heloisa Moraes da Silveira, Isabela Amâncio de Souza, Isadora Sofia de Paula Crepaldi, Jessica de Melo Toledo, Jhennifer Kauane Camillo, Jordana Clarissa, Joubert Emanuel Gomes de Sousa, Júlia Soares, Lethicia Aragão Gianessi Silva, Maria Cecília Gallian Santana, Maria Vitória dos Santos Lueckmann, Matheus Henckmaier, Myllena Oliveira, Olana Tridapalli, Pamela Borges Fajardo, Sofia Furtado de Araujo, Sophia Dalpasquale, Theodor Miguel Gomes Pimenta, Vanessa Matias Heidemann, Victor Hugo de Oliveira Martins, Vivian Elisa Cavanho.

AMP
APETRECHO
DE PESCA ↓
2025
LAGUNA, BRASIL
INTERVENÇÃO EFÊMERA

Os sistemas treliçados, via de regra, se articulam por nós rotulados, permitindo que as peças atuem entre si por compressão e tração simples. A viga Vierendeel, ao engastar os nós e eliminar os quadros diagonais, estrutura uma flexão global, cujos esforços são transferidos integralmente e atuam peça sobre peça.

As pontes que Arthur Vierendeel constrói a partir de seu sistema desenvolvido tomam a esteira das grandes estruturas metálicas do século XIX, onde a revolução industrial dá aos engenheiros um fôlego incessante na produção de infraestruturas. Matthew Digby Wyatt, arquiteto que é tomado de assalto pela proliferação galopante dos vãos que agora eram vencidos, exclamava que “de tais inícios, as glórias que podem advir… podemos sonhar, mas não ousamos prever”.

Na contramão dos trens, cujas pontes se contorcem em agonia para cumprir vãos físicos e uni-los aos trilhos, os barcos não requerem um caminho delineado. Guiados não pelo chão, mas pelo céu, navegadores recorrem das estrelas aos faróis, estruturas que lançam um ponto de luz, forjando uma estrela que possa ser seguida. O caminho entre o mar e a costa é traçado pelo céu: olhos atentos olham pra cima e deslizam abaixo, entrecortando um espaço em aberto que volta a ser assim quando o caminho é finalizado. Assim buscamos traduzir a lógica da terra firme na lógica do mar.

A relação da pesca e do bicho-pescador com o bicho-pescado constrói uma simbiose ímpar na Laguna. Da lagoa se tira muito e, na terra, se consome. A pesca de liquinho subtrai um pouco dessa luz da terra firme e empresta ela ao mar: um pedaço de luz vai na mão do pescador, como um fio que se estende à luz aterrada, para atrair o camarão e lançar-lhe a rede. A luz que baliza a reação do mar à terra se estende mar adentro tensa, como quem quer logo voltar ao alto da torre. O farol aponta para o mar, onde o pescador vai com a intenção inequívoca da volta.

O farol, aqui e agora, se doa à laguna. Uma viga Vierendeel se apoia sobre dois barcos que, parados, traçam uma reta que demarca um perceber, mas que não sublinha o mar. O espaço da deriva ainda está aí: a luz aponta para o horizonte, o farol se estende na direção da linha do céu, e a laguna é o novo ponto de retorno.

A viga, de seção 70×90 cm e de 640 cm, fechada com caixas de peixe plásticas rígidas que contraventam a estrutura, reluz uma luz difusa. Bi-apoiada, usa os balanços de 130 cm entre-eixos para que equilibre os barcos: estamos em um terreno liso, que responde a todo estímulo. Há de se transferir a carga com ternura para a laguna. O Teatro del Mondo de Rossi (1979) já nos mostrava que, sobre a água, toda tipologia organiza um símbolo. O afastamento de quem vê é mandatório e a função, aqui, não vale de tanto quanto o que pode representar. Como acessar um teatro à deriva pelas águas de Veneza? Como atravessar uma ponte à deriva pela Laguna?

O curto-circuito da forma encontra uma poesia: os barcos se unem e carregam uma ponte que não leva nada a lugar nenhum. O vão de quatro metros não carrega peso que não seja o seu, mas coloca os dois barcos sobre uma mesma ação e reação no movediço terreno das águas. Constrói, à palavra dos barqueiros que embarcam a viga, um “apetrecho de pesca”: o liquinho, pedaço de “luz da terra firme” que o barco carrega consigo no mar, agora é uma “luz da laguna” que se empresta para que seja lançada a rede sobre a cidade.

A estrutura se constrói a partir de uma sequência de dois módulos. O primeiro é formado pela caixa de peixe com um quadro perimetral em madeira. Parafusada, atua como a superfície planar que vence o entre-montantes de cada quadro rígido da viga. O segundo, formado pela união de quatro módulos e contraventados por um sistema de cabos, constrói a unidade tridimensional de montante-membrura que modula a viga. Ao ser desmontada, os módulos primários são rearranjados para a construção de banquetas que utilizam as caixas como assento e são distribuídas por instituições na cidade.

O sistema é duplamente parafusado, para minimizar rotulação, até formar a extensão total da viga. Em seu centro, uma sequência emendada de ripas sustenta o sistema elétrico, formado por lâmpadas 12V de bulbo conectadas a duas baterias automotivas. Uma sequência de ganchos guia dois fios de aço que minimizam a flexão na parte inferior da seção.

Ao ser acesa, a luz projeta sobre a lagoa um vazio. Aqui, os dois apoios náuticos criam um pórtico que constrói, abaixo de si, um “entre” do mar com o céu, em um vazio evidenciado pela luz. Essa ponte-farol abre uma margem de dúvida. Para onde será que vai? Como vai se fazer funcionar? Que margens precisa unir? Talvez a resposta não esteja entre a tração e a compressão, assim como não estava a do jovem Vierendeel. Enquanto fantasiamos em torno dos “A”s e “B”s a que viriam calhar uma ponte que os conectasse, a luz das caixas avisa: a resposta está na laguna. Podemos sonhar, mas não ousamos prever.


SOBRE A PRODUÇÃO

Este projeto foi executado através da oficina “Construindo ligeiro vol. 2”, viabilizada a partir de incentivo e recursos do Edital Nº 001/2025 do Festival Internacional de Arte e Cultura José Luiz Kinceler – FIK 2025.

A oficina propõe uma introdução à arquitetura de intervenções no espaço público com um exercício construtivo de curta duração. Utilizando materialidades de baixo impacto e integração local, a atividade propõe refletir sobre as relações de contexto, os conflitos da cidade e as possibilidades de tomar parte da ação na arquitetura.

Os participantes foram convidados a observar, discutir e produzir, enquanto constroem em um período de 12 horas, ações que impactam as percepções de cidadania e propõem novas formas de pensar o objeto arquitetônico, a cidade, e como interagem.

O resultado é de uma obra construída a muitas mãos e que, através de soluções de projeto pensadas antes e durante o processo construtivo, agregam nas discussões sobre o contexto do Centro Fundacional de Laguna.

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