PROPOSTA ESCOLHIDA PARA EXECUÇÃO NA RESIDÊNCIA CAN CLOS, FESTIVAL RIZOMES 2026
Garcia Marquez, colombiano nato e catalão de coração, sentou-se sobre a cadeira de sua casa no Sarrià e, em pouco mais de quatro páginas, inscreveu na força da natureza catalã a tragédia. É verdade que os traumas de sua terra o trouxeram de vento em popa até aqui e que eles se arrastaram com o autor por muito tempo depois, mas também é verdade que ele encontrou, na cultura catalã, o próprio medo que na América Latina também encontrava. Em uma epopeia de dois dias, um jovem caribenho sucumbe à força implacável do tramontana, tempestade de céu limpo, e dos “germes da loucura” [1] que carrega consigo.
É parte da cultura do homem olhar contra o que pode causar fascínio, no medo de tomar-se por inteiro o desejo. É assim que descreve como, em Cadaqués, as janelas se viravam contra o mediterrâneo, neste “raro gosto dos catalães azedos que amam o mar mas sem vê-lo” [2], e como por fugir dele davam de cara com o implacável tramontana, numa emboscada montada da natureza do lugar. Há, no homem, o medo do incontável, do incalculável, de adentrar o “espaço liso” que Deleuze e Guattari enxergavam no mar [3], lugar onde perdemos o controle do mensurável e encaramos os vetores eufóricos das ciências nômades. Assim, fugimos em direção ao que se pode contar, medir, dominar.
Contra o caribenho atuavam os suecos, “ensandecidos pelo verão e pelos duros vinhos catalães daquele tempo, que semeavam ideias desaforadas no coração” [4]. Embarcamos a toda vela junto a eles, acreditando que encarar as ventanias e os delírios é um ato do espírito para encontrar, em dois dias de vendaval, o fantástico e o surreal.
Sob o calor do veraneio, numa plantação de choupos, ocupamos a natureza estriada, fatiada em grelhas que acomodam as árvores com a segurança dos esquadros que “medem o espaço a fim de ocupá-lo” [5] em frente ao Rio Ter. Aí, sob a vontade de folia (que do português é “festa coletiva”, e do catalão é “loucura”) da terra que nutre as árvores, propomos construir uma tempestade de dois dias, acreditando que ela pode destruir e reconstruir formas desmedidas de sentir o território.
Da floresta de cinco por cinco, três bocas de feras apontam ao sul, sudeste e norte. Engolem de fora as rajadas, módulo por módulo, “ocupando o espaço sem medi-lo” [6], desnorteando a grelha como o tramontana do norte, e lançando-os com furor e alegria à floresta onde a gente celebra.
A sul e sudeste, as bocas esperam pelos ventos frescos e úmidos do mediterrâneo. A norte, a boca se abre, como as janelas de Cadaqués e o corpo do caribenho, aos ventos montanhosos. Entre eles, um vazio entre os choupos invoca um turbilhão, espaço fresco e delirante, de abertura aos confortos e desconfortos da força da natureza.
Com o sistema de anemoscopi (que do português, “biruta”, simultaneamente designa os loucos e o sistema de indicação das correntes de vento), os fluxos são capturados e atraídos a um muro de feno que se desfaz, pouco a pouco, de assentos a camas, num espaço comum para encontrar descanso e força na força dos ares, “com uma intensidade e uma sevícia que tenham algo de sobrenatural” [7].
Desses ventos esperamos, respirando ares deleuzianos, a possibilidade de “se expandir por turbulência […], em produzir um movimento que tome o espaço e afete simultaneamente todos os seus pontos, ao invés de ser tomado por ele como no movimento local, que vai de tal ponto a tal outro” [8], e que não encontremos no tramontana a tragédia, mas que enfrentemos a possibilidade de, por dois dias, deixar-se levar com folia e o fantástico pelos ventos catalães que trazem bom tempo.
11|140
Diz respeito as 11 faixas de tecidos leves de 140cm de largura que compõem cada um dos 3 cones que conformam a proposta. As birutas, dispositivos com geometria de seção de cone com ângulos de formação entre 5 a 15 graus, ângulos ideais para menor turbulência interna, são geralmente usadas para indicar a direção e medir a velocidade do vento. Seu formato, a partir do Efeito Venturi, cria uma diferença de pressão ao reduzir o tamanho disponível para passagem do vento, gerando aceleração proporcional à diferença do tamanho das bocas de entrada e saída do ar, obtendo uma espécie de ventilador natural.
A confecção das birutas se dá no desenrolar e reenrolar de alguns rolos de tecido, em que o esforço em pensar uma estrutura leve onde se preserva a integridade das faixas originais, sem corte, se traduz em um grande cone de 12m de comprimento e apenas 10 kg. As abas que se sobrepõem, através da triangulação da construção cônica, dobram-se, unem-se e tornam-se aletas estruturantes e importantes para a formalização do volume e relação com o vento, movimentando-se ao longo de todo o corpo e nas bocas.
MONTAGEM
Para a fixação dos volumes no local, três detalhes foram desenvolvidos, visando pousar a estrutura na malha de plantio das árvores de 5x5m com delicadeza e garantindo que todas as intervenções sejam reversíveis. Importante destacar que ambas as escalas de projeto, deverão ser aprimoradas no desenvolvimento da próxima etapa de projeto.
Cada Biruta possui três cinturões em tecido de maior resistência, responsáveis por conectar-se as 11 aletas servem como ponto de tensionamento estrutural. A aplicação de aros esbeltas varetas metálicas garantem estabilidade geométrica e reforça os pontos de tensão do tecido, contribuindo para a forma da estrutura e uma distribuição mais equilibrada das forças ao longo da superfície.
No topo da árvore, uma fita de carga que abraça o tronco com o acolchoado de borracha segura uma argola metálica ou mosquetão que faz o papel de polia e também é o ponto de tensionamento da estrutura, que será preparado com o tecido ainda ao rés do chão. Isto é, todas as cordas e fios serão entrelaçadas em seus respectivos pontos e depois içadas de modo a atingir sua posição desejada.
Na base da árvore, com semelhança ao ponto fixado logo acima, configura-se o local de manuseio onde será içado o tecido. Uma vez ajustado o tensionamento de toda a Biruta, um nó de caminhoneiro é responsável pela finalização do conjunto e manter firme o sistema içado.
[1, 2, 4, 7] García Márquez, Gabriel. Doce cuentos peregrinos. Madrid: Mondadori, 1992.
[3, 5, 6, 8] Deleuze, Gilles, y Félix Guattari. Mil mesetas: Capitalismo y esquizofrenia. Valencia: Pre-Textos, 2002.
IMAGEM 16: Boitatá Ilheu (1973), de Franklin Joaquim Cascaes. Nanquim sobre papel, 48,9 × 51,1 cm. Acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabral (MArqUE/UFSC).
ARQUITETURA
Igor de March
João Vitor Pilati
Gabriel Espíndola
Arthur Cantanhade
Thiago Guimarães
11|140 ↓
PROPOSTA ESCOLHIDA PARA EXECUÇÃO NA RESIDÊNCIA CAN CLOS, FESTIVAL RIZOMES 2026
Garcia Marquez, colombiano nato e catalão de coração, sentou-se sobre a cadeira de sua casa no Sarrià e, em pouco mais de quatro páginas, inscreveu na força da natureza catalã a tragédia. É verdade que os traumas de sua terra o trouxeram de vento em popa até aqui e que eles se arrastaram com o autor por muito tempo depois, mas também é verdade que ele encontrou, na cultura catalã, o próprio medo que na América Latina também encontrava. Em uma epopeia de dois dias, um jovem caribenho sucumbe à força implacável do tramontana, tempestade de céu limpo, e dos “germes da loucura” [1] que carrega consigo.
É parte da cultura do homem olhar contra o que pode causar fascínio, no medo de tomar-se por inteiro o desejo. É assim que descreve como, em Cadaqués, as janelas se viravam contra o mediterrâneo, neste “raro gosto dos catalães azedos que amam o mar mas sem vê-lo” [2], e como por fugir dele davam de cara com o implacável tramontana, numa emboscada montada da natureza do lugar. Há, no homem, o medo do incontável, do incalculável, de adentrar o “espaço liso” que Deleuze e Guattari enxergavam no mar [3], lugar onde perdemos o controle do mensurável e encaramos os vetores eufóricos das ciências nômades. Assim, fugimos em direção ao que se pode contar, medir, dominar.
Contra o caribenho atuavam os suecos, “ensandecidos pelo verão e pelos duros vinhos catalães daquele tempo, que semeavam ideias desaforadas no coração” [4]. Embarcamos a toda vela junto a eles, acreditando que encarar as ventanias e os delírios é um ato do espírito para encontrar, em dois dias de vendaval, o fantástico e o surreal.
Sob o calor do veraneio, numa plantação de choupos, ocupamos a natureza estriada, fatiada em grelhas que acomodam as árvores com a segurança dos esquadros que “medem o espaço a fim de ocupá-lo” [5] em frente ao Rio Ter. Aí, sob a vontade de folia (que do português é “festa coletiva”, e do catalão é “loucura”) da terra que nutre as árvores, propomos construir uma tempestade de dois dias, acreditando que ela pode destruir e reconstruir formas desmedidas de sentir o território.
Da floresta de cinco por cinco, três bocas de feras apontam ao sul, sudeste e norte. Engolem de fora as rajadas, módulo por módulo, “ocupando o espaço sem medi-lo” [6], desnorteando a grelha como o tramontana do norte, e lançando-os com furor e alegria à floresta onde a gente celebra.
A sul e sudeste, as bocas esperam pelos ventos frescos e úmidos do mediterrâneo. A norte, a boca se abre, como as janelas de Cadaqués e o corpo do caribenho, aos ventos montanhosos. Entre eles, um vazio entre os choupos invoca um turbilhão, espaço fresco e delirante, de abertura aos confortos e desconfortos da força da natureza.
Com o sistema de anemoscopi (que do português, “biruta”, simultaneamente designa os loucos e o sistema de indicação das correntes de vento), os fluxos são capturados e atraídos a um muro de feno que se desfaz, pouco a pouco, de assentos a camas, num espaço comum para encontrar descanso e força na força dos ares, “com uma intensidade e uma sevícia que tenham algo de sobrenatural” [7].
Desses ventos esperamos, respirando ares deleuzianos, a possibilidade de “se expandir por turbulência […], em produzir um movimento que tome o espaço e afete simultaneamente todos os seus pontos, ao invés de ser tomado por ele como no movimento local, que vai de tal ponto a tal outro” [8], e que não encontremos no tramontana a tragédia, mas que enfrentemos a possibilidade de, por dois dias, deixar-se levar com folia e o fantástico pelos ventos catalães que trazem bom tempo.
11|140
Diz respeito as 11 faixas de tecidos leves de 140cm de largura que compõem cada um dos 3 cones que conformam a proposta. As birutas criam uma diferença de pressão ao reduzir o tamanho disponível para passagem do vento, gerando aceleração proporcional à diferença do tamanho das bocas de entrada e saída do ar, obtendo uma espécie de ventilador natural.
A confecção das birutas se dá no desenrolar e reenrolar de alguns rolos de tecido, em um grande cone de 12m de comprimento e apenas 10 kg. As abas que se sobrepõem tornam-se aletas estruturantes e importantes para a formalização do volume e relação com o vento.
MONTAGEM
Para a fixação dos volumes no local, três detalhes foram desenvolvidos, visando pousar a estrutura na malha de plantio das árvores de 5x5m com delicadeza e garantindo que todas as intervenções sejam reversíveis.
Cada Biruta possui três cinturões em tecido de maior resistência para tensionamento estrutural. No topo da árvore, uma fita de carga abraça o tronco e segura um mosquetão que faz o papel de polia. Na base da árvore configura-se o local de manuseio onde será içado o tecido através de um nó de caminhoneiro.
[1, 2, 4, 7] García Márquez, Gabriel. Doce cuentos peregrinos. Madrid: Mondadori, 1992.
[3, 5, 6, 8] Deleuze, Gilles, y Félix Guattari. Mil mesetas: Capitalismo y esquizofrenia. Valencia: Pre-Textos, 2002.
IMAGEM 16: Boitatá Ilheu (1973), de Franklin Joaquim Cascaes. Nanquim sobre papel, 48,9 × 51,1 cm. Acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabral (MArqUE/UFSC).