PEIXE À TIROLESA
2025 . LAGUNA, SC, BRASIL
Peixe à Tirolesa é um projeto-acontecimento que buscou imprimir a socialização enquanto construção de uma ação coletiva no espaço público da cidade de Laguna, SC.
Desdobramento de um trabalho que estuda o território de Laguna através de um objeto de cadeia operatória, a caixa de peixe, o jantar busca cenografar outras intelecções da cidadania no patrimônio. Esta intelecção se constrói como uma costura, um cruzamento improvável entre dois pontos que atravessam as relações simbólicas que estão construídas no espaço. Enquanto processo, esse projeto se constrói em dois tempos, que articulam o futuro do pretérito e o presente.
Este jantar tomaria a porção vacante de um sobrado no centro de Laguna como infraestrutura, utilizando dele para construir sobre o espaço público — neste caso, a praça central em frente ao Mercado Público — a situação buscada. As mesas ocupariam a praça em cruz, aproveitando a máxima distância linear das diagonais do polígono. Marcando em seu ponto central, instalaríamos uma estrutura em madeira e ferro.
A “tirolesa”, objeto de transporte e de recepção, é um dispositivo que articula a operação dos sarilhos, estruturas de içamento dos barcos pesqueiros na região, em um contexto de reconfiguração simbólica da cidade enquanto sistema de soluções espaciais.
Da janela do sobrado uma polia correria um cabo e uma caixa, que cruzariam o céu da praça até o ponto de encontro. O girar do sarilho, suspenso por quatro cabos de aço, transportaria o alimento que é servido, conformando uma ação direta entre o limite privado do patrimônio, aqui articulado como cozinha, e de sua interface com o reconhecimento coletivo. O edifício se amarra à praça, enozado pela tirolesa e reentendido pela criação da situação.
Este acolhimento da imprevisibilidade proposto pelo projeto-acontecimento também precisou organizar, a partir de certa bricolagem do próprio projeto, outros meios de construir uma esfera pública.
Enquanto resultado coletivo, esse projeto-acontecimento foi um trabalho de muitas mãos. Mãos que carregaram caixas, que forneceram pratos e talheres, que cozinharam com cuidado e que comeram. Foram as mãos que, coletivamente construindo a plataforma espacial sobre a qual a janta se realizaria, construiram também uma nova estruturação do projeto a partir da noção de emergência.
Aqui acontece um câmbio essencial dos tempos.
Ventos intensos tomam o cais da lagoa de Santo Antônio dos Anjos, que fronteia a praça central onde o jantar seria instalado. O instinto protetivo busca outras alternativas. Em pouco menos de um dia, as mãos buscam abrigo sobre a galeria superior do Mercado Público, que se abre por um conjunto avarandado para a própria praça. Esse gesto construiu, de assalto, um novo conjunto de relações do espaço privado.
Mãos se apertam e uma cozinha é cedida dentro do térreo do mercado. O desafio se reconstrói: agora, a tirolesa precisa içar os alimentos, que são preparados no térreo e entregues ao segundo pavimento. Em vez de cruzar a fronteira entre o público e o privado, a tirolesa atravessa o átrio que conecta uso e vazio, criando a diagonalidade na relação de verticalidade que cessa os espaços.
Mãos deslocam todo o material ao segundo pavimento, carregando pilhas de caixas de pescado e placas de vidro que constroem o salão de jantar. Plasticamente, a construção é intuitiva, quase simplória: mãos carregam as caixas e as amontoam, e outras mãos colocam por cima placas de vidro temperado que vencem os vãos livres e criam tampos. Mãos se penduram sobre as tesouras da cobertura que, agora, ancoram a tirolesa que é posicionada no meio do corredor central do piso térreo. Como uma sagra italiana, a ação coletiva sobre o espaço comum, ou tornado comum, constrói uma nova espessura sensível da cidadania e de como ela se imprime na cenografia urbana.
Mãos enrolam o cabo de aço que, mais tarde, trará a comida que jantarão. O que se desenrola, enquanto acontecimento, é o ensaio de uma atividade que, sem se perceber, já é a própria ação do projeto, porque aqui o projeto é entendido como meio de construir uma coletividade celebratória. As mãos que se juntaram e separaram, carregaram e lançaram objetos da praça ao mercado imprimiram no lugar uma coreografia do todo, que configurou a partir da mudança de plano uma situação da emergência do coletivo.
Após a construção, os convidados se sentam. Todos são convidados a tornar público, ao dispor um enfeite sobre a mesa, um afeto individual que era coletivizado. Como um jardim de avó, em que pouco importa a disposição das espécies, mas o afeto que sobre as flores se deposita, a mesa expunha a vontade de construir um sensível partilhado coletivamente. A janta passa a ser uma relação de troca, de câmbio entre todas as partes, de participação ativa.
As apresentações dos chefes são feitas e, aos poucos, o cardápio começa a ser servido. Cada ingrediente é produzido e recolhido localmente, partindo de uma ética partilhada entre toda a equipe de contribuição a uma cadeia sustentável. Convidados se divertem, interagindo entre conhecidos e desconhecidos, manipulando os enfeites que subsidiam conversas paralelas e sobrepostas, que crescem em forma e conteúdo à medida em que a caipirinha de butiá é servida.
Com o tardar da hora, os convidados dispersam. Do segundo pavimento do Mercado art déco, abrem-se portas e janelas que miram, de um lado, a lagoa, e de outro, a antiga praça onde a janta seria realizada. O ato se encerra com a recolhida de todo material, que é devolvido para o ponto de origem. De estômago cheio, as mãos voltam às casas e apartamentos das quais, horas antes, saíram em direção a uma janta na praça.
O jantar enquanto projeto-acontecimento materializa uma cenografia do urbano que propõe uma nova leitura de cidade. Ele cria uma partícula temporária de um comportamento coletivo imprevisível que, tomado de assalto por uma mudança nos tempos – climáticos e verbais – conferem com suas mãos ao espaço novas dimensões do público e do comum.
ARQUITETURA
AMP
Igor de March
João Vitor Pilati
Tony Torquato
NA COZINHA
Felipe Abe
Elizamar Oliveira
NO SALÃO
Lucas Tavares
Tony Torquato
À MESA
Agatha Antunes
Alexandre Marques
Amanda Reis
Anna Karenina
Bárbara Tartari
Bruna Gauger
Clara Briani
Eduardo Aquino
Eduardo Giovani Nogueira
Gabriel Espíndola
Gabriela Torres
Giulia Giordani
Gloria Cabral
Gustavo Andrade
Gustavo Fernandes
Gustavo Pires de Andrade Neto
Igor De March
Jade Terra
João Vitor Pilati
João Garrote
Julia Stedile
Juliana Nascimento
Leandro Pacheco
Lethicia Gianessi
Lucca Vinci
Matheus Henckmaier
Murilo Faller
Myllena Victor Oliveira
Olana Tridapalli
Otávio Hünttemann
Pedro Werlich
Sofia Furtado de Araujo
Thiago Severino
Vera Lobo
Vitória Marcelino
Vitória Périco
APOIO
Fundação Lagunense de Cultura
Sabores do Litoral
Comercial Silvio Castro
Empório 12
Vitória Maria Inácio Périco