+PESCADOR+MEIO+PESCADO+
Laguna sempre teve no elemento água seu princípio estruturante. A presença pré-histórica de sambaquis revela uma ancestralidade indígena vinculada aos corpos hídricos a partir de uma escuta atenta do meio. Com a imposição de uma lógica de domínio e progresso, a colonização rompeu esse equilíbrio, silenciando a conexão com o entorno.
A malha configurada pela ocupação urbana seguiu uma lógica na qual os mais ricos instalaram-se na planície central, área privilegiada, acolhida pelo morro e voltada às águas. Já os pescadores, que sempre viveram da lagoa, formaram as vilas pesqueiras e criaram uma Laguna além dos morros.
Com o passar do tempo, o território estendeu o seu limite sobre as águas por meio de aterros, vulneráveis à elevação do nível do mar. Contudo, são também a prova de que, apesar das transformações, perpetua-se a vontade da relação humana com a borda.
Símbolos dessa permanência, os sarilhos — estruturas tradicionais que mantêm barcos suspensos sobre a água — funcionam como extensão da moradia, erguidos junto às casas dos pescadores. Representam a desfragmentação da casa convencional e permitem o convívio junto às águas. Com recursos mínimos, perpetuam a ocupação e o vínculo com esse meio.
No início do século passado, aguadeiros percorriam a cidade transportando barris abastecidos nas fontes naturais e declaravam em altos brados: “Água! Água! Água!”. Com a modernidade, essas águas passaram a ser conduzidas por galerias subterrâneas e vendidas em um chafariz. Assim, os sons que marcavam a paisagem urbana e anunciavam a presença do recurso mais abundante do território foram selados por uma torneira.
As fontes foram silenciadas, são águas que já não se ouvem, não se veem e menos ainda, se bebem. A algumas quadras delas, distribuidoras comercializam, em bombonas plásticas, águas que foram transportadas por centenas de quilômetros, enquanto nascentes locais permanecem ocultas e esquecidas. O fluxo natural que moldou o espaço foi esquecido, substituído por circuitos comerciais que ignoram a escuta relegada. Contudo, as nascentes continuam a pulsar entrelaçadas ao território.
Definindo todo o recorte territorial do município, a Lagoa de Santo Antônio dos Anjos recebe o deságue do Rio Tubarão que atravessa o estado de Santa Catarina e carrega consigo a carga poluente de 26 municípios. Na lagoa, de um lado despejam-se as águas límpidas das fontes esquecidas; de outro, o rio a turva com seu fluxo incessante.
A pesquisa tem como ponto de partida as caixas de peixe, observadas como objeto de cadeia operatória capaz de expressar a identidade e o cotidiano de um lugar. Sempre presentes na paisagem do centro, expressam a constante atividade pesqueira da região.
Embora presentes na atividade pesqueira, a ausência de sarilhos aponta que os pescadores nunca compuseram a narrativa oficial do âmago da cidade, tampouco foram incluídos no traçado da poligonal de tombamento do Centro Histórico. A proposta é legitimar o trabalho do pescador como elemento central da paisagem e a partir disso repensar o nosso modo de estar no mundo.
A reativação das três fontes naturais forma uma malha hídrica que permeia o tecido urbano, possibilitando o cultivo tanto sobre a terra, por meio da apropriação das ruas para plantio urbano, quanto sobre as águas, com a pesca e os tanques de aquicultura.
Os casarões subutilizados tornam-se moradias e restaurantes comunitários, enquanto as edificações próximas à lagoa servem de apoio para a pesca. A Casa do Peixe torna-se o coração do cais que através de uma grande sombra articula espaços de trabalho, convivência e alimentação em torno da vida pesqueira.
E SE OS PESCADORES VOLTASSEM AO CENTRO
Em terra, a água volta a correr com destino, possibilitando a reativação de modos ancestrais de ocupar o território.
A água das fontes, naturalmente ácida, é filtrada para ajustar seu pH. As cascas de camarão, resíduos da produção artesanal, passam por processos que as transformam em quitosana. Quando combinada com areia e pedras na filtragem, purifica a água, tornando-a própria para consumo.
A rede hídrica é reativada e estruturada para que adquira dois trajetos:
O primeiro trajeto se mescla à rede pluvial, irrigando as hortas de plantio urbano e chegando rica em nutrientes aos tanques de camarões. O alimento cultivado é preparado em mutirão, funcionando como uma micro-rede e garantindo um ciclo fechado de produção, consumo, compostagem e insumos para novas produções.
O segundo trajeto chega aos sobrados subutilizados que são ocupados por restaurantes populares; às torneiras que transformam o ato de saciar a sede em um gesto generoso e abundante em cada mesa; aos jatos d’água que emergem do chão, incentivando a brincadeira. Por fim, no cais, a água abastece o mercado do peixe, enquanto o excedente é direcionado para a piscina pública.
Sobre as águas, na foz do Rio Tubarão, instala-se um sensor que denuncia a contaminação e o assoreamento constantes. Nesse contexto limpar a lagoa é inviável, a resposta está justamente no que o rio carrega.
O assoreamento causado pelo acúmulo de sedimentos prejudica todo o sistema, causando a diminuição de peixes que resulta em uma menor atividade pesqueira e perda da conexão humana com a água. A solução não é lutar contra o sedimento, mas incorporá-lo, usando sua matéria orgânica como recurso para a formação de áreas de plantio sobre a água: as chinampas.
A implantação das chinampas se dá através de estacas cravadas no fundo da lagoa, advindas de espécies invasoras removidas para recuperar a mata nativa. Para a fixação do conjunto, as estacas são amarradas com fibras de butiá, permitindo que as raízes aumentem a estruturação do solo.
Sobre essa base, camadas de sedimentos, vegetação e restos orgânicos formam um substrato poroso que retém umidade, alimenta plantas e sustenta a biodiversidade.
Na superfície, plantio; nos intervalos aquáticos, canais de cultivo orgânico e autossustentável de camarão, alimentado por recursos naturais do ambiente, sem ração ou aditivos. Dessa forma, a contaminação se converte em recurso e a paisagem degradada se transforma em um solo fértil.
É preciso pensar a arquitetura a partir das relações e as relações como um ecossistema, de forma que tudo se conecte e nada se perca. Propor uma rede viva. Um modo de viver em que cada ação cotidiana representa uma troca fundamental ancorada pelo respeito ao meio e uma profunda conexão com a água.
O sistema se comporta como um organismo: respira, transpira, se adapta, se regenera, mas também adoece. A menor quebra no equilíbrio pode afetar toda a cadeia. O desaparecimento de uma espécie não representa apenas uma lacuna, mas o enfraquecimento de um elo vital que sustenta múltiplas relações complexas.
Em um ciclo, nada é pequeno. Um desequilíbrio — na chuva, na temperatura, na ponta da cadeia — se espalha como efeito dominó. Aqui, cada espécie sustenta a outra. Se uma falha, todas sentem.
O sistema socioecológico é um modelo de futuro que se ancora no passado, resgatando a escuta do território e reimaginando as relações do ser com o meio. O que está em risco não é apenas o meio — é o modo de estar no mundo. É mais do que paisagem, é uma rede pulsante e interdependente que exige cuidado constante. Talvez ainda dê tempo, mas não por muito.
PROJETO SELECIONADO PARA O CONCURSO INTERNACIONAL DE ESCOLAS DE ARQUITETURA DA 14ª BIENAL INTERNACIONAL DE ARQUITETURA DE SÃO PAULO
ORIENTAÇÃO
Gustavo Pires de Andrade Neto | Professor substituto (Orientador)
Gloria Cabral (Orientadora externa)
EQUIPE
João Vitor Bittencourt Pilati (Aluno de arquitetura e urbanismo)
Líder de equipe
Agatha Antunes de Souza (Aluna de Biologia)
Desenvolvimento
Gustavo Henrique Pires (Aluno de Biologia)
Concepção, pesquisa, texto e revisão final
João Garrote (Aluno de Biologia)
Pesquisa e Ilustração
Lucas Tavares (Aluno de arquitetura e urbanismo)
Texto e revisão final
Marina Formighieri (Aluna de arquitetura e ubanismo)
Pesquisa
Matheus Henckmaier (Engenheiro de pesca, mestre em ciências biológicas e aluno de arquitetura e urbanismo)
Pesquisa
Myllena Oliveira (Aluna de arquitetura e urbanismo)
Desenvolvimento
Sofia Furtado de Araujo (Aluna de arquitetura e urbanismo)
Concepção, ilustração e texto
Tony Rodrigues Torquato (Aluno de arquitetura e urbanismo)
Concepção, pesquisa, desenvolvimento, texto e revisão final
Vera Lobo (Aluna de biologia)
Concepção e pesquisa
Rafael Sena – trilha sonora
Yan Magalhães Marrese – motion design
Igor de March – consultoria externa



















