BICICAIXAS E OUTROS TRÂNSITOS
2025 SÃO PAULO, BRASIL EXPOSIÇÃO

A exposição bicicaixas e outros trânsitos surge enquanto resposta a uma necessidade procedimental: uma quase-centena de caixas de peixe precisam ser armazenadas e transportadas de São Paulo a Laguna, de forma que reduzam o orçamento para a execução de um projeto cultural na cidade. Este transporte pode ser feito gratuitamente pelo ônibus que traz uma equipe de graduandos para as atividades de inauguração da Bienal de Arquitetura de São Paulo.

Desta necessidade definitiva e da ocasião interestadual das atividades relacionadas à bienal parte a vontade de estabelecer um espaço de tensão das ideias de localidade e mutabilidade – tanto física quanto cultural. Junto do espaço físico do Tietê 178 Lab, acolhe-se a possibilidade de uma intervenção expográfica que seja ligeira, de inércia curta, que construa e destrua a exposição a partir da ação coletiva.

A exposição busca explorar a noção de “trânsito” enquanto sistema de trocas físicas e simbólicas. Partindo dos estudos das caixas de peixe e da ação ecossistêmica que se consolidaram para a exposição da Bienal, a proposta trabalha uma rota de reflexão marginal, mas complementar, do pensamento conformado no trabalho submetido para a Oca.

Esta reflexão parte de um ponto de vista mais amplo, que pensa a ideia de lugar diante de um contexto socioespacial onde a formation de uma “cultura artesanal” pode ser fortemente vinculada a um processo de hibridização dos ciclos econômicos1. A heterogeneidade entre artesanal-industrial que “contaminou” o desenvolvimento truncado da cultura popular pesqueira busca ser explorada aqui como fato dado a partir de uma série de operações de deslocamento: o deslocamento do objeto massivo – a caixa de peixe – enquanto dispositivo de uso artesanal, o deslocamento semântico deste para outros usos e condições, e o deslocamento dos signos que este objeto representa dentro do espaço construído, rearticulando as relações sensíveis que se estabelecem entre um objeto bastante protocolar – um dispositivo que armazena uma mercadoria – e as possibilidades que derivam da sua bricolagem.

Buscamos evidenciar manifestações casuais da interação local-global entre o objeto, a caixa de peixe, e o ambiente, a cidade e a paisagem em Laguna, mediados por uma relação de instabilidade uns com os outros e entre si. Esta relação é baseada na ideia de “transculturação”2, que invoca a paisagem cultural de Laguna como uma “zona de contato” entre essas permutas materiais.


EXPOGRAFIA

A expografia é desenhada a partir das condicionantes propostas de ocupação do espaço, evitando ao máximo a manipulação de outros materiais ou de prejuízo à espacialidade concebida originalmente para a galeria.

Através do acúmulo em pilhas das caixas de peixe recebidas, forma-se uma parede de seis colunas com catorze caixas cada. Esta parede se estende sobre toda a fachada principal da galeria, cobrindo a extensa porta de vidro em altura e comprimento, e conformando uma entrada de pouco mais de 60 centímetros. Essa operação responde tanto à alocação segregadas dos trabalhos expostos quanto dialoga com o espaço expográfico, que é deslocado da fruição interna-externa a um provinciano fechamento tacanho do objeto construído.

As caixas são posicionadas com as aberturas para baixo, de forma que suas alças sirvam como apoio para as fotografias a serem expostas. O resto da galeria fica vazio até o início das atividades coletivas, sem cadeiras ou mesas.

A exposição é construída em duas instalações, dispostas um em cada lado da parede de caixas de peixe.


ATIVAÇÃO

A exposição tem duração de um dia, coincidente ao dia em que o ônibus retorna a Laguna, e é dada por uma sequência de proposições coletivas.

A abertura da exposição deixa a parede integralmente montada por algumas horas. À medida em que o público chega se reúne, iniciam-se as comunicações e rodas de conversa acerca da temática da exposição e da Bienal frente à participação da Universidade do Estado de Santa Catarina.

O público é convidado a retirar as caixas da parede e utilizá-las como banco, podendo levar consigo os cartões postais da segunda instalação como lembrança do evento. Aos poucos, a parede projetada pela expografia – e a própria exposição enquanto conjunto homogêneo – são desfeitos e transformam-se em um espaço de conversa, de desenho não planejado, onde o público pode aproveitar o conforto provido pelo assento de caixas para participar da conversa.

Após a conversa, expositores de caixa são dispostos para a venda de cervejas, marcando o happy hour de encerramento da exposição. A comemoração acontece até o momento onde as caixas são levadas para dentro do ônibus, que parte em direção ao destino final em Laguna.

01 CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 2015.

02 ANJOS, Moacir dos. Local/Global: Arte em trânsito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

PRODUÇÃO E REALIZAÇÃOAMP (Igor de March + João Vitor Pilati + Tony Torquato)
Tietê 178 Lab (Gabriel Kogan + Clara Figueiredo)

CURADORIAAMP
Otávio Hünttemann

EXPOGRAFIAAMP

PROJETO GRÁFICOLuna Maria

TEXTO DE APRESENTAÇÃOEduardo Aquino

ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃOAgatha Antunes
Lucas Tavares

AMP
BICICAIXAS E
OUTROS TRÂNSITOS ↓
2025
SÃO PAULO, BRASIL
EXPOSIÇÃO

A exposição bicicaixas e outros trânsitos surge enquanto resposta a uma necessidade procedimental: uma quase-centena de caixas de peixe precisam ser armazenadas e transportadas de São Paulo a Laguna, de forma que reduzam o orçamento para a execução de um projeto cultural na cidade. Este transporte pode ser feito gratuitamente pelo ônibus que traz uma equipe de graduandos para as atividades de inauguração da Bienal de Arquitetura de São Paulo.

Desta necessidade definitiva e da ocasião interestadual das atividades relacionadas à bienal parte a vontade de estabelecer um espaço de tensão das ideias de localidade e mutabilidade – tanto física quanto cultural. Junto do espaço físico do Tietê 178 Lab, acolhe-se a possibilidade de uma intervenção expográfica que seja ligeira, de inércia curta, que construa e destrua a exposição a partir da ação coletiva.

A exposição busca explorar a noção de “trânsito” enquanto sistema de trocas físicas e simbólicas. Partindo dos estudos das caixas de peixe e da ação ecossistêmica que se consolidaram para a exposição da Bienal, a proposta trabalha uma rota de reflexão marginal, mas complementar, do pensamento conformado no trabalho submetido para a Oca.

Esta reflexão parte de um ponto de vista mais amplo, que pensa a ideia de lugar diante de um contexto socioespacial onde a formação de uma “cultura artesanal” pode ser fortemente vinculada a um processo de hibridização dos ciclos econômicos1. A heterogeneidade entre artesanal-industrial que “contaminou” o desenvolvimento truncado da cultura popular pesqueira busca ser explorada aqui como fato dado a partir de uma série de operações de deslocamento: o deslocamento do objeto massivo – a caixa de peixe – enquanto dispositivo de uso artesanal, o deslocamento semântico deste para outros usos e condições, e o deslocamento dos signos que este objeto representa dentro do espaço construído, rearticulando as relações sensíveis que se estabelecem entre um objeto bastante protocolar – um dispositivo que armazena uma mercadoria – e as possibilidades que derivam da sua bricolagem.

Buscamos evidenciar manifestações casuais da interação local-global entre o objeto, a caixa de peixe, e o ambiente, a cidade e a paisagem em Laguna, mediados por uma relação de instabilidade uns com os outros e entre si. Esta relação é baseada na ideia de “transculturação”2, que invoca a paisagem cultural de Laguna como uma “zona de contato” entre essas permutas materiais.


EXPOGRAFIA

A expografia é desenhada a partir das condicionantes propostas de ocupação do espaço, evitando ao máximo a manipulação de outros materiais ou de prejuízo à espacialidade concebida originalmente para a galeria.

Através do acúmulo em pilhas das caixas de peixe recebidas, forma-se uma parede de seis colunas com catorze caixas cada. Esta parede se estende sobre toda a fachada principal da galeria, cobrindo a extensa porta de vidro in height e comprimento, e conformando uma entrada de pouco mais de 60 centímetros. Essa operação responde tanto à alocação segregadas dos trabalhos expostos quanto dialoga com o espaço expográfico, que é deslocado da fruição interna-externa a um provinciano fechamento tacanho do objeto construído.

As caixas são posicionadas com as aberturas para baixo, de forma que suas alças sirvam como apoio para as fotografias a serem expostas. O resto da galeria fica vazio até o início das atividades coletivas, sem cadeiras ou mesas.

A exposição é construída em duas instalações, dispostas um em cada lado da parede de caixas de peixe.


ATIVAÇÃO

A exposição tem duração de um dia, coincidente ao dia em que o ônibus retorna a Laguna, e é dada por uma sequência de proposições coletivas.

A abertura da exposição deixa a parede integralmente montada por algumas horas. À medida em que o público chega se reúne, iniciam-se as comunicações e rodas de conversa acerca da temática da exposição e da Bienal frente à participação da Universidade do Estado de Santa Catarina.

O público é convidado a retirar as caixas da parede e utilizá-las como banco, podendo levar consigo os cartões postais da segunda instalação como lembrança do evento. Aos poucos, a parede projetada pela expografia – e a própria exposição enquanto conjunto homogêneo – são desfeitos e transformam-se em um espaço de conversa, de desenho não planejado, onde o público pode aproveitar o conforto provido pelo assento de caixas para participar da conversa.

Após a conversa, expositores de caixa são dispostos para a venda de cervejas, marcando o happy hour de encerramento da exposição. A comemoração acontece até o momento onde as caixas são levadas para dentro do ônibus, que parte em direção ao destino final em Laguna.

01 CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 2015.

02 ANJOS, Moacir dos. Local/Global: Arte em trânsito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

FICHA TÉCNICA ↓
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