Laguna sempre teve no elemento água seu princípio estruturante. A presença pré-histórica de sambaquis revela uma ancestralidade indígena vinculada aos corpos hídricos a partir de uma escuta atenta do meio. Com a imposição de uma lógica de domínio e progresso, a colonização rompeu esse equilíbrio, silenciando a conexão com o entorno.
A malha configurada pela ocupação urbana seguiu uma lógica na qual os mais ricos instalaram-se na planície central, área privilegiada, acolhida pelo morro e voltada às águas. Já os pescadores, que sempre viveram da lagoa, formaram as vilas pesqueiras e criaram uma Laguna além dos morros.
Com o passar do tempo, o território estendeu o seu limite sobre as águas por meio de aterros, vulneráveis à elevação do nível do mar. Contudo, são também a prova de que, apesar das transformações, perpetua-se a vontade da relação humana com a borda.
Símbolos dessa permanência, os sarilhos — estruturas tradicionais que mantêm barcos suspensos sobre a água — funcionam como extensão da moradia, erguidos junto às casas dos pescadores. Representam a desfragmentação da casa convencional e permitem o convívio junto às águas. Com recursos mínimos, perpetuam a ocupação e o vínculo com esse meio.
No início do século passado, aguadeiros percorriam a cidade transportando barris abastecidos nas fontes naturais e declaravam em altos brados: “Água! Água! Água!”. Com a modernidade, essas águas passaram a ser conduzidas por galerias subterrâneas e vendidas em um chafariz. Assim, os sons que marcavam a paisagem urbana e anunciavam a presença do recurso mais abundante do território foram selados por uma torneira.
As fontes foram silenciadas, são águas que já não se ouvem, não se veem e menos ainda, se bebem. A algumas quadras delas, distribuidoras comercializam, em bombonas plásticas, águas que foram transportadas por centenas de quilômetros, enquanto nascentes locais permanecem ocultas e esquecidas.
A pesquisa tem como ponto de partida as caixas de peixe, observadas como objeto de cadeia operatória capaz de expressar a identidade e o cotidiano de um lugar. Sempre presentes na paisagem do centro, expressam a constante atividade pesqueira da região.
Embora presentes na atividade pesqueira, a ausência de sarilhos aponta que os pescadores nunca compuseram a narrativa oficial do âmago da cidade, tampouco foram incluídos no traçado da poligonal de tombamento do Centro Histórico. A proposta é legitimar o trabalho do pescador como elemento central da paisagem e a partir disso repensar o nosso modo de estar no mundo.
A reativação das três fontes naturais forma uma malha hídrica que permeia o tecido urbano, possibilitando o cultivo tanto sobre a terra, por meio da apropriação das ruas para plantio urbano, quanto sobre as águas, com a pesca e os tanques de aquicultura.
Os casarões subutilizados tornam-se moradias e restaurantes comunitários, enquanto as edificações próximas à lagoa servem de apoio para a pesca. A Casa do Peixe torna-se o coração do cais que através de uma grande sombra articula espaços de trabalho, convivência e alimentação em torno da vida pesqueira.
E SE OS PESCADORES VOLTASSEM AO CENTRO
Em terra, a água volta a correr com destino, possibilitando a reativação de modos ancestrais de ocupar o território. A água das fontes, naturalmente ácida, é filtrada para ajustar seu pH. As cascas de camarão, resíduos da produção artesanal, passam por processos que as transformam em quitosana.
Sobre as águas, na foz do Rio Tubarão, instala-se um sensor que denuncia a contaminação e o assoreamento constantes. A solução não é lutar contra o sedimento, mas incorporá-lo, usando sua matéria orgânica como recurso para a formação de áreas de plantio sobre a água: as chinampas.
É preciso pensar a arquitetura a partir das relações e as relações como um ecossistema, de forma que tudo se conecte e nada se perca. Propor uma rede viva. Um modo de viver em que cada ação cotidiana representa uma troca fundamental ancorada pelo respeito ao meio e uma profunda conexão com a água.
PROJETO SELECIONADO PARA O CONCURSO INTERNACIONAL DE ESCOLAS DE ARQUITETURA DA 14ª BIENAL INTERNACIONAL DE ARQUITETURA DE SÃO PAULO
ORIENTAÇÃO
Gustavo Pires de Andrade Neto | Professor substituto (Orientador)
Gloria Cabral (Orientadora externa)
EQUIPE
João Vitor Bittencourt Pilati
Líder de equipe
Agatha Antunes de Souza
Desenvolvimento
Gustavo Henrique Pires
Concepção, pesquisa, texto e revisão final
João Garrote
Pesquisa e Ilustração
Lucas Tavares
Texto e revisão final
Marina Formighieri
Pesquisa
Matheus Henckmaier
Pesquisa
Myllena Oliveira
Desenvolvimento
Sofia Furtado de Araujo
Concepção, ilustração e texto
Tony Rodrigues Torquato
Concepção, pesquisa, desenvolvimento, texto e revisão final
Vera Lobo
Concepção e pesquisa
Rafael Sena
Trilha sonora
Yan Magalhães Marrese
Motion design
Igor de March
Consultoria externa
MEIO+PESCADO+ ↓
Laguna sempre teve no elemento água seu princípio estruturante. A presença pré-histórica de sambaquis revela uma ancestralidade indígena vinculada aos corpos hídricos a partir de uma escuta atenta do meio. Com a imposição de uma lógica de domínio e progresso, a colonização rompeu esse equilíbrio, silenciando a conexão com o entorno.
A malha configurada pela ocupação urbana seguiu uma lógica na qual os mais ricos instalaram-se na planície central, área privilegiada, acolhida pelo morro e voltada às águas. Já os pescadores, que sempre viveram da lagoa, formaram as vilas pesqueiras e criaram uma Laguna além dos morros.
Com o passar do tempo, o território estendeu o seu limite sobre as águas por meio de aterros, vulneráveis à elevação do nível do mar. Contudo, são também a prova de que, apesar das transformações, perpetua-se a vontade da relação humana com a borda.
Símbolos dessa permanência, os sarilhos — estruturas tradicionais que mantêm barcos suspensos sobre a água — funcionam como extensão da moradia, erguidos junto às casas dos pescadores. Representam a desfragmentação da casa convencional e permitem o convívio junto às águas. Com recursos mínimos, perpetuam a ocupação e o vínculo com esse meio.
No início do século passado, aguadeiros percorriam a cidade transportando barris abastecidos nas fontes naturais e declaravam em altos brados: “Água! Água! Água!”. Com a modernidade, essas águas passaram a ser conduzidas por galerias subterrâneas e vendidas em um chafariz. Assim, os sons que marcavam a paisagem urbana e anunciavam a presença do recurso mais abundante do território foram selados por uma torneira.
As fontes foram silenciadas, são águas que já não se ouvem, não se veem e menos ainda, se bebem. A algumas quadras delas, distribuidoras comercializam, em bombonas plásticas, águas que foram transportadas por centenas de quilômetros, enquanto nascentes locais permanecem ocultas e esquecidas.
A pesquisa tem como ponto de partida as caixas de peixe, observadas como objeto de cadeia operatória capaz de expressar a identidade e o cotidiano de um lugar. Sempre presentes na paisagem do centro, expressam a constante atividade pesqueira da região.
Embora presentes na atividade pesqueira, a ausência de sarilhos aponta que os pescadores nunca compuseram a narrativa oficial do âmago da cidade, tampouco foram incluídos no traçado da poligonal de tombamento do Centro Histórico. A proposta é legitimar o trabalho do pescador como elemento central da paisagem e a partir disso repensar o nosso modo de estar no mundo.
A reativação das três fontes naturais forma uma malha hídrica que permeia o tecido urbano, possibilitando o cultivo tanto sobre a terra, por meio da apropriação das ruas para plantio urbano, quanto sobre as águas, com a pesca e os tanques de aquicultura.
Os casarões subutilizados tornam-se moradias e restaurantes comunitários, enquanto as edificações próximas à lagoa servem de apoio para a pesca. A Casa do Peixe torna-se o coração do cais que através de uma grande sombra articula espaços de trabalho, convivência e alimentação em torno da vida pesqueira.
E SE OS PESCADORES VOLTASSEM AO CENTRO
Em terra, a água volta a correr com destino, possibilitando a reativação de modos ancestrais de ocupar o território. A água das fontes, naturalmente ácida, é filtrada para ajustar seu pH. As cascas de camarão, resíduos da produção artesanal, passam por processos que as transformam em quitosana.
Sobre as águas, na foz do Rio Tubarão, instala-se um sensor que denuncia a contaminação e o assoreamento constantes. A solução não é lutar contra o sedimento, mas incorporá-lo, usando sua matéria orgânica como recurso para a formação de áreas de plantio sobre a água: as chinampas.
É preciso pensar a arquitetura a partir das relações e as relações como um ecossistema, de forma que tudo se conecte e nada se perca. Propor uma rede viva. Um modo de viver em que cada ação cotidiana representa uma troca fundamental ancorada pelo respeito ao meio e uma profunda conexão com a água.
PROJETO SELECIONADO PARA O CONCURSO INTERNACIONAL DE ESCOLAS DE ARQUITETURA DA 14ª BIENAL INTERNACIONAL DE ARQUITETURA DE SÃO PAULO
ORIENTAÇÃO
Gustavo Pires de Andrade Neto | Professor substituto (Orientador)
Gloria Cabral (Orientadora externa)