SEEDBIRDING
2026 LUGANO, SUÍÇA ARQUITETURA EFÊMERA

PROPOSTA PARA A 6ª BIENAL SUÍÇA DO TERRITÓRIO

Trabalhar com as mãos pode ser uma tarefa difícil. Todo trabalho manual exige um esforço que não pode ser ensaiado ou antevisto; o conhecimento de um procedimento não garante que ele seja seguido ou convertido em outra coisa completamente diferente. Em uma cultura onde toda ação invoca um léxico pré-pronto de resoluções, o cuidado – mais do que como a aversão ao imprevisto – pressupõe a operação de um gesto diluído no tempo e incrustado em uma escala pequena, não muito maior do que as mãos podem segurar. Daí advém o prazer e o afeto do que é feito na mão: um gesto que se inflama, ainda que por poucos segundos, numa totalidade de mundo sobre quem trabalha, convertendo intervenções localizadas em operadores de dispersão territorial.

O dispositivo SEEDBIRDING repensa a noção de território enquanto uma escala pequena, tocada na palma da mão — ou na ponta do bico — e passada de um ao outro por um afeto genuíno e simplório, desinteressado.

Construída a partir de elementos dos sistemas de barreira suíços comumente vistos em ruas e canteiros de obra, esta estação produtiva interpola, de modo construtivo, a lógica gramatical desses objetos. Remontados, esses gadgets formam um dispositivo que contradiz a semântica institucional, agora coletivamente empenhado em deslocar esses objetos da interdição e do confinamento em direção à circulação e à difusão.

Diversas espécies vegetais autóctones ameaçadas [I] compõem um banco de sementes [II]. Mãos humanas friccionam os ingredientes acoplados à estrutura para produzir seedbombs [III]. No alto do dispositivo, poleiros acolhem os pássaros [IV] atraídos pelas seedbombs. Um conjunto de hardwares sobe e desce essas casas, que alcançam pontualmente as mãos humanas.

Essas mãos dão ao pássaro a comida, permitindo que ele a consuma e devolva com matéria orgânica [V] ao próprio terreno — sob uma cama de pedras eventualmente irrigada que constrói núcleos ruderais de desenvolvimento vegetal [VI] — e sob um território que pode compreender a Villa Saroli, Lugano ou o Ticino… quanto mais os pássaros puderem voar.

BANCO DE SEMENTES

A pesquisa sobre a fauna e flora de Lugano é articulada com o objetivo de uma ação regenerativa através da flora nativa e estabelece contato com instituições de cuidado e proteção ambiental para colaboração na proposta. Esta cooperação busca obter sementes que fazem parte do pool genético do Ticino e de Lugano, respeitando a singularidade ecossistêmica e a procedência genética dos Alpes meridionais. Também confere visibilidade ao tema e visa servir como instrumento para esses parceiros, com a participação do público em geral. O levantamento e a seleção de espécies para a composição do banco de sementes priorizam espécies-alvo de conservação na seguinte ordem: globalmente ameaçadas; endêmicas do Ticino; espécies ruderais localmente extintas; plantas com funções ecológicas, incluindo espécies fixadoras de nitrogênio e outras que possam atuar como atratoras de fauna silvestre.

DISPERSÃO

A preparação da seedbomb, composta de sebo bovino e óleo de coco e enriquecida com sementes, estabelece uma interface de campo entre o elemento a ser dispersado e os pássaros, compreendidos como agentes centrais da restauração ecológica. O comportamento natural desses animais viabiliza a propagação de patrimônios florais perdidos pelo território, enquanto o dispositivo opera como um suporte emissor de biodiversidade.

A dispersão ocorre em duas escalas. A primeira se dá diretamente sob o ponto de interação com o dispositivo, por meio de excretas produzidas no momento da alimentação. A deposição desse material sobre a cama de pedras disposta na base cria um ambiente ruderal artificial que, ao fim do período da Bienal, pode ser relocado para outros sítios, continuando a propagar a vida ali estabelecida.

A segunda escala tem seu alcance estimado por meio de um levantamento, atualmente em fase preliminar, das espécies de pássaros mais comuns na região, correlacionando o tempo de retenção das sementes em seus sistemas digestivos com a velocidade de deslocamento e a distância média percorrida diariamente. Essa correlação permite estimar a sombra de dispersão, capaz de iniciar novos ciclos de existência e, potencialmente, de permanência.

MONTAGEM

O projeto adota o reuso de materiais de sistemas construtivos temporários como estratégia central de viabilidade. Evitar danos e adaptar o sistema para novos usos permite, após a desmontagem, a reintegração quase completa dos elementos em sua cadeia de produção original.

Os elementos estruturais verticais são compostos por sarrafos justapostos, aumentando a seção resistente, espaçados por fragmentos de sarrafo rotacionados 90°. Essa configuração forma o berço para os conectores que sustentam o banco de sementes. Tubos metálicos verticais, dotados de pequenas aberturas para separar as espécies, são fixados nas faces terminais de cada pilar e atuam simultaneamente como suporte e contraventamento, permitindo que a meia-lua opere como um plano curvo estruturalmente mais estável.

Os elementos horizontais encaixam nos topos dos pilares por meio de um sistema de intertravamento. O eixo central dessas peças se alinha com o centro da meia-lua, gerando um balanço intencionalmente desproporcional, compensado pela redução da seção dos elementos e pela criação de uma saliência esbelta e controlada.

O objeto cilíndrico metálico central é responsável por armazenar a matéria-prima utilizada na produção das seedbombs e integra também um reservatório de água destinado à limpeza das mãos ao fim da ação. Os poleiros de alimentação são configurados em grelha e operam por meio de um sistema de polias instalado no topo da estrutura e acionado pela parte posterior. Por meio do movimento vertical, oferecem berços para as bombas utilizando espaçadores de armadura invertidos, formando pequenas cúpulas com 40 mm de diâmetro.

EQUIPE

Igor de March
João Vitor Pilati
Gustavo Henrique Pires
Alena Zea

AMP
SEEDBIRDING ↓
2026
LUGANO, SUÍÇA
ARQUITETURA EFÊMERA

PROPOSTA PARA A 6ª BIENAL SUÍÇA DO TERRITÓRIO

Trabalhar com as mãos pode ser uma tarefa difícil. Todo trabalho manual exige um esforço que não pode ser ensaiado ou antevisto; o conhecimento de um procedimento não garante que ele seja seguido ou convertido em outra coisa completamente diferente. Em uma cultura onde toda ação invoca um léxico pré-pronto de resoluções, o cuidado – mais do que como a aversão ao imprevisto – pressupõe a operação de um gesto diluído no tempo e incrustado em uma escala pequena, não muito maior do que as mãos podem segurar. Daí advém o prazer e o afeto do que é feito na mão: um gesto que se inflama, ainda que por poucos segundos, numa totalidade de mundo sobre quem trabalha, convertendo intervenções localizadas em operadores de dispersão territorial.

O dispositivo SEEDBIRDING repensa a noção de território enquanto uma escala pequena, tocada na palma da mão — ou na ponta do bico — e passada de um ao outro por um afeto genuíno e simplório, desinteressado.

Construída a partir de elementos dos sistemas de barreira suíços comumente vistos em ruas e canteiros de obra, esta estação produtiva interpola, de modo construtivo, a lógica gramatical desses objetos. Remontados, esses gadgets formam um dispositivo que contradiz a semântica institucional, agora coletivamente empenhado em deslocar esses objetos da interdição e do confinamento em direção à circulação e à difusão.

Diversas espécies vegetais autóctones ameaçadas [I] compõem um banco de sementes [II]. Mãos humanas friccionam os ingredientes acoplados à estrutura para produzir seedbombs [III]. No alto do dispositivo, poleiros acolhem os pássaros [IV] atraídos pelas seedbombs. Um conjunto de hardwares sobe e desce essas casas, que alcançam pontualmente as mãos humanas.

Essas mãos dão ao pássaro a comida, permitindo que ele a consuma e devolva com matéria orgânica [V] ao próprio terreno — sob uma cama de pedras eventualmente irrigada que constrói núcleos ruderais de desenvolvimento vegetal [VI] — e sob um território que pode compreender a Villa Saroli, Lugano ou o Ticino… quanto mais os pássaros puderem voar.

BANCO DE SEMENTES

A pesquisa sobre a fauna e flora de Lugano é articulada com o objetivo de uma ação regenerativa através da flora nativa. Esta cooperação busca obter sementes que fazem parte do pool genético do Ticino e de Lugano, respeitando a singularidade ecossistêmica e a procedência genética dos Alpes meridionais. O levantamento e a seleção de espécies priorizam espécies-alvo de conservação: globalmente ameaçadas; endêmicas do Ticino; espécies ruderais localmente extintas; plantas com funções ecológicas.

DISPERSÃO

A preparação da seedbomb, composta de sebo bovino e óleo de coco e enriquecida com sementes, estabelece uma interface entre o elemento a ser dispersado e os pássaros, compreendidos como agentes centrais da restauração ecológica.

A dispersão ocorre em duas escalas: diretamente sob o ponto de interação com o dispositivo, e numa segunda escala estimada pela correlação entre o tempo de retenção das sementes nos sistemas digestivos das aves e a distância média percorrida diariamente.

MONTAGEM

O projeto adota o reuso de materiais de sistemas construtivos temporários como estratégia central de viabilidade. Os elementos estruturais verticais são compostos por sarrafos justapostos com tubos metálicos que atuam como suporte e contraventamento. Os poleiros de alimentação operam por meio de um sistema de polias instalado no topo da estrutura, formando pequenas cúpulas com 40 mm de diâmetro.

FICHA TÉCNICA ↓
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